domingo, 17 de abril de 2016

O som em alta fidelidade - Parte 4

O Vinil


Como sempre, um pouco de história.

Surgindo no ano de 1948, tornou os discos de goma-laca de 78 rotações obsoletos. Os discos de 78 rotações tiveram seu inicio em 1890.

Após o lançamento do CD, no final da década de 80, o vinil teve sua utilização rápida e gradativamente reduzida e quase desapareceram por completo no final do século passado. A partir de 2010 uma onda começou a popularizar novamente a utilização do vinil e a gravadora Plysom começou a produzir discos de vinil, dada a necessidade crescente destas mídias para a utilização de DJs, colecionadores e o público que não estava satisfeito com a qualidade sonora dos CDs.

No período anterior aos CDs e mídias digitais, o Vinil era o que de melhor o consumidor podia ter em questão de qualidade da fonte sonora.


O processo de gravação.

Depois do processo inicial de produção com a captação, mixagem, masterização inicial e gravação em algum suporte analógico ou mais modernamente digital, o conteúdo é remasterizado de forma a adaptar-se ao meio ou mídia a que vai ser gravada. Esta re-masterização prevê e aplica as correções devidas aos limites técnicos impostos pela mídia final de suporte. No vinil, por ser um processo de gravação e reprodução mecânico, as correções da re-masterização são extremamente importantes e delas dependerá a qualidade do produto final.

Após os processos eletrônicos iniciais, uma fresa eletrônica literalmente corta a superfície de uma matriz de acetato, transferindo o som representado eletricamente para os sulcos onde futuramente será trilhado pela agulha do toca discos, convertendo-o novamente para um sinal eletrônico.



Disco e agulha ampliados 1000x


Desta matriz em acetato outra parte do processo cria um “carimbo” em negativo, que prensa uma pasta quente de cloreto de polivinilo ou poliéster e no  final deste processo temos o disco de vinil, que estamos acostumados a ver, pronto para o processo final de acabamento e embalagem.

No processo eletrônico da re-masterização, uma série de equalizações de resposta de freqüência e compressões são aplicadas. A correção de resposta de freqüência, ou equalização, utiliza uma curva padronizada de correção chamada Curva de Equalização RIAA. A curva RIAA atenua os sons com freqüência abaixo de 500 Hz  e acentua os sons agudos acima de 2.120 Hz antes da gravação. Este processo visa diminuir o ruído inserido no processo de gravação e reprodução da mídia vinil, uma vez que a maioria do ruído ouvido está na faixa dos agudos e impede que os níveis dos sons graves criem ondulações nos sulcos capazes de interferir nos sulcos adjacentes.


O processo de reprodução

No processo de reprodução um Pré-Amplificador de Phono aplica em seu filtro uma curva de equalização RIAA inversa, ou seja, os agudos que anteriormente foram acentuados, são agora atenuados, e os graves anteriormente atenuados agora são acentuados, tudo na proporção inversa da curva RIAA de gravação, mantendo os níveis finais iguais aos níveis presentes na gravação original. Como há, na reprodução uma filtragem de agudos, os ruídos oriundos do disco físico de vinil são também atenuados.

Todos os pré-amplificadores e receivers vintages da era do vinil já possuem no circuito da entrada phono um filtro RIAA, já os mais modernos não possuem. Portanto, se o amplificador ou receiver não tiver entrada phono, é necessário o uso de um pré-amplificador de phono para amplificar e equalizar a curva RIAA do sinal analógico oriundo de um toca discos com cápsula magnética. 

Existem toca discos que possuem capsulas de cristal, que pelas características de reprodução do cristal, não necessitam de equalização RIAA. Estas cápsulas de cristal, não conseguem reproduzir adequadamente a curta RIAA e possuem baixa qualidade, somente sendo utilizadas em aparelhos de baixa qualidade não atendendo as expectativas de do som em Hi Fi.

As cápsulas magnéticas tem um nível de saída do sinal elétrico muito reduzido, cerca de 5mv (5 milionésimos de volts), já as cápsulas de cristal tem um nível de saída muito maior, cerca de 100mV. Estas últimas podem ser ligadas diretamente a entrada AUX de qualquer equipamento de amplificação.

Note, na figura abaixo que a curva de atuação dos filtros RIAA de gravação (em verde) e reprodução (em vermelho) tem as curvas idênticas, porém invertidas. O resultado é uma saída plana (em azul) pronta para ser amplificada pelos próximos estágios da amplificação.



Curvas de gravação e reprodução RIAA


As cápsulas magnéticas tem um nível de saída do sinal elétrico muito reduzido, cerca de 5mv (5 milésimos de volts), já as cápsulas de cristal tem um nível de saída muito maior, cerca de 100mV. Estas últimas podem ser ligadas diretamente a entrada AUX de qualquer equipamento de amplificação.




Pré-Amplificador de Phono DIY



O Toca disco

O toca disco é a peça fundamental na qualidade de reprodução e na conservação de seus LPs. São componentes eletromecânicos de precisão, cuja função é transformar as informações mecânicas gravadas nos sulcos dos vinis em sinais elétricos fieis à forma original que foi produzida.

Seus elementos construtivos principais são:

a) Conjunto de tração

Composto basicamente pelo motor, elemento de acoplamento (correia, polia ou motor de tração direta direct drive) e pelo prato de suporte ao disco de vinil.

O conjunto deve promover uma rotação constante do disco sem introduzir nenhuma variação ou ruído mecânico ao mesmo. Os toca discos de qualidade possuem motores de tração direta ou  tração por correia. 

A grande maioria de toca discos Hi End utiliza a tração por correia, que por ser muito flexível e o motor estar mecanicamente isolado do resto do mecanismo,  transfere menos ruído do motor para o prato e o braço do toca discos. Já os direct drive são os preferidos por DJs, pois permitem a inversão manual de rotação do disco nos efeitos de scratch. Toca discos de polia somente são utilizados em equipamentos de baixo custo e baixa qualidade.

O prato deve ter boa massa, ser pesado, para que a inércia ajude a manter a velocidade constante e minimize qualquer vibração mecânica gerada pelo motor. Pratos de plastico, ou com pouca massa, somente são utilizados em equipamentos de baixa qualidade.



Tração por correia x tração direct drive.



b) Conjunto de captação

Composto basicamente pela agulha, capsula e conjunto do braço tem a função de trilhar a superfície do disco de forma estável e sutil. O alinhamento deste conjunto é imprescindível para uma perfeita transferência dos sinais mecânicos do sulco do vinil para sinais eletrônicos prontos para serem amplificados.

Os braços são construídos com muitas variações de design e utilizando vários tipos de materiais em sua construção, sendo os mais comuns os alumínio e compostos plásticos. Muitos fatores construtivos determinam a qualidade e eficácia do conjunto do braço, e são demasiadamente complexos para serem abordadas neste momento.

A cápsula deve estar com agulha em condições de uso, pois esta fica em contato direto com o disco, e as suas condições determinam a longevidade do mesmo. Quando devidamente utilizadas,  as agulhas, têm uma vida útil de aproximadamente 500 horas, uma agulha desgastadas ou quebrada deve ser substituída.

Cada conjunto cápsula/agulha tem um peso de tracionamento específico, definido pelo seu fabricante. Nos conjuntos de melhor qualidade o peso de tracionamento fica entre uma ou duas gramas. 

As cápsulas com baixo peso de tracionamento não funcionarão bem com braços cuja mecânica necessite de pesos maiores para trilhar corretamente o disco. Isto significa que não adianta nada comprar uma cápsula de alta qualidade se seu toca disco não possui um mecanismo de braço a altura.

Os toca discos de maior qualidade tem seu funcionamento totalmente manual, ou seja, não possuem mecanismos que acionam o braço automaticamente ou dependem dele para parar o motor ao final do disco. Estes mecanismos automáticos interferem na precisão do movimento do braço e impõem forças que são inadequadas para que ele possa trabalhar com baixos pesos de tracionamento. Prefira um toca disco manual a um automático ou semi-automático.

Embora alguns são totalmente manuais, toca discos e cápsulas destinadas a DJ necessitam de peso de tracionamento muito grande, muitas vezes superior a cinco gramas. Este peso é altamente danoso aos LPs, pois as forças excessivas terminam gastando as paredes dos sulcos dos discos.

Nunca toque a agulha da cápsula, e a mantenha protegida, com o braço travado, quando não estiver em uso. Sempre que possível, "aterrize" a agulha no disco com a ajuda do mecanismo de amortecimento existente na maioria dos braços.

Os toca discos de qualidade permitem que o posicionamento da cápsula, seu peso de tracionamento, correção da tendência a deslizamento (anti skating) e velocidade de rotação sejam ajustados.  

Uma consulta ao manual do fabricante é fundamental para proceder com estes ajustes. Existem tabelas, gabaritos e equipamentos dedicados a estes ajustes. Um  toca discos devidamente ajustado é fundamental para a qualidade da audição.

No próxima parte deste artigo trataremos dos ajustes do toca discos.



Braço de toca discos Hi End, em fibra de carbono



Os cuidados

Diferente dos CDs e das mídias digitais, a qualidade do material gravado e durabilidade do Vinil e dos componentes de toca discos são diretamente proporcionais aos cuidados com o armazenamento e manuseio.

Os sulcos dos discos de vinil são extremamente sensíveis e não devem ser tocados por nenhun objetos (incluindo os dedos) a não ser pela agulha da cápsula, pelo plástico especial da capa e pela borracha do prato do toca discos. Manuseie os discos somente tocando-os pela borda sem tocar os sulcos. Qualquer dano aos sulcos do disco acarretará em ruído na audição e maior desgaste da agulha, assim como qualquer sujeira que esteja depositada nos sulcos.

Os discos devem ser guardados em local seco sem poeira ou calor, sempre nas embalagens plásticas e em pé. Não se deve guardá-los na posição horizontal, nem tampouco empilhados, pois isso poderá empená-los.

Regularmente os LPs devem ser lavados para se retirar a poeira de seus sulcos e existe uma técnica para isso. 

Os discos devem ser lavados com água limpa corrente e detergente neutro, não utilize nenhum produto químico como alcool, solventes, lubrificantes, polidores, etc.

a) Manipule o disco somente pela borda, não toque seus sulcos com os dedos.

b) Comece molhando a superfície do vinil com água corrente, tomando cuidado para não molhar a etiqueta central.

c) Dilua algumas gotas de detergente neutro em um pouco de água limpa.

d) Molhe um algodão (preferencialmente cirúrgico, que não solta fibra) na solução de detergente e passe na superfície do vinil numa espiral, no sentido contrário ao da tração da agulha no toca discos, de dentro para fora. Faça esses movimentos varias vezes. Não utilize esponjas, panos ou qualquer outro material abrasivo na limpeza.

e) Enxague com água corrente até que não haja mais vestígio de sabão na superfície. Neste ponto a água não fica mais retida nos sulcos.

f) Repita a operação dos dois lados do disco.

g) Deixe secar, na vertical, em local sem poeira e a sombra. Não deixe nada tocar na superfície do disco.

Você pode construir um “secador” para os vinis com arame ou adaptando um suporte de faqueiro, conforme a foto.


Secando vinil após a lavagem


A agulha do toca discos também pode ficar impregnada de sujeira microscópica, que não sai com as escovinhas para limpeza.

Para limpa-la, basta utilizar um dos LPs que acabaram de ser lavados e com ele ainda úmido, coloque no toca discos e deixe a agulha trilhar seus sulcos, ainda com umidade. Após alguns minutos, retire o disco e proceda com a lavagem do mesmo.

A umidade no sulco ajudará na remoção de sujeira impregnada nas paredes da agulha.



Sujeira na parede da agulha, ampliada 10000 vezes




A qualidade do vinil

Como já dito antes, a qualidade final da cadeia de audição depende da qualidade de cada processo independente. Desde a captação até o som chegar aos nossos ouvidos, todos os componentes e processos devem ser de qualidade compatível com as expectativas do som em Hi Fi.

Sem contar o processo inicial, a re-masterização é um dos processos mais críticos no processo de produção do vinil e depende de fatores altamente técnicos que levam em consideração o tempo de audição, o número de faixas e capacidade da mídia de vinil. Na teoria, um LP Single (não um compacto single) permite que se aplique menos compressão ou correções e, portanto tem melhor qualidade que um LP com 10 faixas por lado, onde se deve fazer caber mais informações em menos espaço.

No começo o processo de produção do vinil era totalmente analógico e ficava livre das imposições e degradações técnicas impostas pelos processos de digitalização. Com o advento dos processos e algoritmos digitais o processo de masterização passou a ser, também digital.

Com a volta do vinil em anos recentes, muita "trambicagem" vem acontecendo, com gravadoras passando re-masterização de CD diretamente para o vinil, inserindo parâmetros de correções  que não estão de acordo com as necessidades, ou pelo menos não otimizadas, com as as mídias de vinil. Mais grave ainda é a possibilidade da produção de vinis a partir de mídias altamente comprimidas como o MP3. Alguns dados técnicos da produção do vinil, são fornecidos nas capas dos mesmos.



O que soa melhor, vinil ou mídias digitais?

A resposta, eliminando fatores técnicos, é o que lhe soar melhor.

A audição musical é uma questão de gosto pessoal. O processo de se ouvir um LP é por sua essência um rito onde todos os passos, deste a manipulação do LP até a leitura dos encartes são extremamente prazerosos. Por outro lado, ouvir uma mídia digital, sem os chiados, sem necessitar dos cuidados especiais na manipulação do vinil e podendo-se passar de uma música ou banda para outra em segundos é extremamente prático. 

A comparação de qualidade entre as mídias só será efetiva se com músicas de qualidade de conteúdo e produções de boa qualidade assim como de todos os componentes da cadeia sonora. 

Aprenda a prestar atenção nos detalhes da peças musicail, assista a audições acústicas ao vivo, treine seus ouvidos.

De nada adiantará fazer uma comparação se não temos a capacidade de perceber a diferença sonora de um MP3 em 128Kbps e um de 320Kbps.



Continua com os ajustes do toca disco...


Um comentário:

  1. Excelente e necessária informação para quem quer melhorar, ou mesmo, conhecer o mundo sonoro de qualidade! Ha mais de 40 anos atrás, quando comprei meu primeiro som, era esse Gradiente, que você mostra aqui. O famoso e maravilhoso receiver STR1050! O meu está ótimo até hoje, rsrs! Adorei tudo que você postou aqui. Meus parabéns, amigo!

    ResponderExcluir